O dom do amador
Quando Jepp Gambardella, no filme "La Grande Bellezza", diz: "É triste ser boa, corre o risco de tornar-se ágil", eu fiquei um tanto curioso. O que ele quis dizer com isso? Busquei em algumas entrevistas do diretor Paolo Sorrentino a resposta. Para ele, o cinema, mas também a própria vida, é o reino dos dilettantes (amadores). Apenas os amadores conseguem ter liberdade criativa, pois sempre encontram-se na nascente — onde as ideias vêm infinitas pelo seio da terra, e não no oceano — onde tudo se dilui. Além disso, todo artista em essência é um amador, pois na etimologia da palavra, amador vem do latim "amator" que significa "aquele que ama. E para os gregos antigos, o amor era o desejo intenso por algo considerado belo, ato este encarnado pelo deus Eros. Vale lembrar é claro quem são os pais de Eros: Poro, que representa o recurso e abundância, e Pênia, que representa a pobreza e ignorância. Isto é o ato mesmo de criação: dar algo para aquilo que é vazio. A arte opera nesse vazio. A própria filosofia opera nesse vazio, já que a dúvida é a falta de algo. Os amadores, no sentido de iniciantes em algo, normalmente tem uma visão mais apaixonada sobre o objeto de interesse. Isso configura-se como a virtude cavalheiresca, chamada Futuwah no Islã, e Futuwah significa simplesmente "juventude", pois somente a imaginação de um apaixonado pode conquistar uma virtude. É preciso agir como os grandes amantes: Romeu por Julieta, e Julieta por Romeu.